Rosivaldo Casant
PUERTO 25 — O PARAGUAI É AQUI
Quando se faz referência ao Brás como lugar de compras, o sentido extrapola a geografia, estendendo-se para o Pari, centro e demais bairros adjacentes, cujo emaranhado comercial atrai gente dos lugares mais longínquos e diferentes do país.
25 de MarçoPUERTO 25 — O PARAGUAI É AQUI
Quando se faz referência ao Brás como lugar de compras, o sentido extrapola a geografia, estendendo-se para o Pari, centro e demais bairros adjacentes, cujo emaranhado comercial atrai gente dos lugares mais longínquos e diferentes do país. Algumas ruas que nem pertencem ao bairro são tornadas suas porque é vantajoso para todos os envolvidos. Algo parecido ocorre na região do Mercado Municipal de São Paulo, próximo ao Parque Dom Pedro II, sendo, ao inverso: a região é resumida num único endereço: Rua 25 de Março. “Terça-feira iremos à 25 de Março para fazer compras”. Combinado de esposa é determinação e não se discute mais; ela falou, está falado. Na data fixada, levantamos cedo, nos preparamos e fomos de automóvel, pois seria o mais prático para carregar o tanto de coisa que certamente compraríamos.
A começar pelas cercanias do Parque Dom Pedro e seguindo em direção à Senador Queiroz, o trânsito era absurdo; carros em demasia; parecia que todo mundo tivera a mesma ideia de fazer compras ali naquele dia. Trafegar era uma aventura, mas era o começo da epopeia; vinha no combo o estacionamento (já experimentei deixar na rua, em estacionamento horizontal, vertical e até deixar no bairro do Ipiranga para completar o percurso de metrô), mas o expediente era sempre muito problemático. A etapa seguinte, que também não era benfazeja, caminhar pela 25 e cercanias, tendo cuidado com carteiras e outros objetos de valor; além de possíveis cotoveladas e pisões nos pés. Finalmente, a suposta última etapa: adentrar às lojas para encontrar os produtos desejados e, muitas vezes, disputá-los no tapa (quase ou literalmente); já vi muita figura impoluta descer do salto e rodar a baiana . Eram muitas lojas para ser visitadas e exploradas mais de uma vez, pois a pesquisa de preços nos fazia retornar algumas vezes a lugares já escrutinados. A compra e a venda se dá indiscriminadamente em lojas e calçadas, abarrotadas de camelôs e seus badulaques. E eu que reclamava de Ciudad del Este, Paraguai! Logo pensei: o Paraguai é aqui, gringo!
Éramos jovens e estávamos preparados fisicamente para o embate, recebendo um empurrão aqui, uma cotovelada de alguém que queria o mesmo objeto que a gente e passava mãos e braços, esfolando nossos narizes e quase derrubando meus óculos. Mais para o fundo, em alguma loja, eram caixas enormes cheias de mercadorias para reposição (e como se repõe lá, meu Pai do Céu!) nos degolando, não fôssemos ligeiros. Mas, fazer o quê? Não podíamos decepcionar os pequenos da família que aguardavam seus brinquedos no Natal, no Dia das Crianças e nos aniversários. O jeito era a gente se resignar e enfrentar o pesadelo. Como se diz no popular: melhor aceitar que dói menos.
Não era portunhol que se falava naquele lugar; eram todos os sotaques do Brasil, um “brasileirol”, pois além de pessoas de todos os bairros da capital paulista, muitas outras vinham de vários cantos do estado e do país. Portanto, o mineirês, o nordestino e até o andino, com peruanos e bolivianos que tocavam seus charangos e zamponhas para angariarem um troquinho. Aliás, o que não falta são modalidades de arranjos para se ganhar uma grana (aquela mesma que Caetano canta que ergue e destrói coisas belas). No entanto, a economia informal (surgida para dar a algumas famílias a chance de sobrevivência) tira a calçada de pedestres, forçando-os a dividir perigosamente o asfalto com os automóveis; leva os lojistas a prejuízo e a administração pública à perda de arrecadação. Precisaríamos equacionar melhor essa situação, de maneira a atender com justiça todos os envolvidos.
Certa feita, também fazendo compras para uma data que requeria vários presentes, na esquina da Rua Comendador Afonso Kherlakian, um camarada me abordou como se tivesse me reconhecido, sorrindo e perguntando como eu estava, dizendo que era um prazer falar comigo e por aí foi. Eu levantei as sobrancelhas e fixando o olhar no sujeito, fui perguntando à minha esposa se ela o conhecia, pois eu não conseguia me lembrar dele de nenhum lugar. A estratégia era essa mesma: fingir-se de conhecido, se aproximar rapidamente, não dando tempo de pensar em outra coisa que não supor que o conhecia de algum lugar, não se sabendo de onde. Ele chegou e colocou uma falsificação de perfume importado, dizendo que era meu. Eu agradeci. Aí veio a facada: “Ele custa tanto, mas para você eu faço por tanto” (umas dez vezes mais barato). Quase preso na armadilha, vi que outro sujeito se aproximava com um jeito intimidador para completar o golpe, intimidando, para que eu não recusasse a “oferta”. Meus dispositivos de segurança destravaram, fazendo-me apertar a mão da minha mulher para, num movimento rápido, arrastá-la pela faixa de pedestres, mesmo com o sinal fechado para nós. Felizmente nenhum carro nos acertou, nem eles vieram no nosso encalço. Com tanta gente na rua é previsível um número crescente de malandros tentando golpes a todo instante.
Apesar do aparato policial em certas épocas do ano para coibir a ação dos criminosos nas regiões de comércio popular, sempre fica aquém da disposição e criatividade da bandidagem, que vê, principalmente na impunidade, a facilidade para aplicar golpes nos incautos do turismo de compras. Está cada vez mais difícil fazer compras na 25, mas sendo o Paraguai ali, sem longas horas de viagem, o melhor, sem dúvida, é ir para o corpo-a-corpo na terça ou em qualquer dia da semana.



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